Categoria Histórias

porMarcilio

Um médico contra todos

   

Nesta mesma clínica, atendi um paciente de 12 anos com todos os sintomas de meningite. Ele havia sido tido um traumatismo craniano e recebeu uma placa de metal no crânio, que infelizmente havia infeccionado.  

 

    Eram 3 horas da madrugada e eu liguei para o Hospital de referência para meningite em São Paulo, tentando transferir o paciente.  

 

    A colega de plantão naquele Hospital, disse que ele só seria AVALIADO se já tivesse os exames do líquido espinhal COMPROVANDO a meningite!

 

    Isso de madrugada…

 

    Ele tinha TRÊS planos de saúde, nem lembro porquê.

 

    Mas nenhum “cobria” meningite e nem tinha vaga de UTI para ele!

 

    Como ele estava muito grave e não tinha condição de ficar passeando pelos hospitais e pedindo vaga, tomei a decisão de deixá-lo internado ali mesmo.

 

    O problema é que a enfermeira-chefe (por coincidência, uma amiga de faculdade daqui de Belém!) não queria de jeito nenhum um paciente com uma doença tão grave na enfermaria, e a UTI estava lotada.  

 

    Aí eu fui na ala de Obstetrícia e perguntei: Quais são os diagnósticos aqui?

 

    Ela disse: São várias pacientes grávidas, com hiperêmese (vomitando muito).

 

    Eu prontamente repeti o que meu professor costumava dizer: “Gravidez não é doença” e dei alta pra todo mundo.  

 

    A baixinha queria me matar, e acho que perdi a amizade dela neste dia…   🙂

 

    Ela disse que se eu deixasse o paciente na enfermaria sem o convênio cobrir os gastos, eu seria chamado para pagar a internação.

 

    Aí eu disse que pagaria sim, mas no Conselho Regional de Medicina, ao lado do PAI dele.  🙂 

 

    Prescrevi os antibióticos junto com o pediatra e saí do plantão de manhã.

 

    A tarde liguei para saber do paciente e ele já estava na UTI, mesmo sem o Hospital saber como ia receber…

MORAL: O Sistema é uma “guerra”, mas o médico é seu amigo!

porMarcilio

O viúvo quase alegre

   

Certa vez atendi uma paciente de trinta e sete anos, com uma parada cardíaca. 

 

    Ela havia tido a parada dentro da ambulância do resgate, após uma dor no peito e um desmaio em casa. Eu e a outra plantonista ficamos fazendo reanimação por quase duas horas, já que a paciente não tinha nenhuma história de problemas de saúde, exceto que no dia anterior havia recebido alta após a retirada de um nódulo mamário, mas todos os exames pré-operatórios foram normais.  

 

    O eletrocardiograma na hora da parada mostrava arritmias graves, que não responderam nem a remédios nem a “choque”.   

 

    Quando desistimos , fui dar a notícia do óbito, e a primeira coisa que o marido me perguntou foi:  

 

    “Quem vai dar o atestado?”   

 

    Vamos ver se eu entendi…eu pensei.  

 

    1- Ele está casado com uma pessoa que supostamente gosta, e quando ela morre ele pede o atestado antes de chorar?   

 

    É ruim, hein?

 

    2- E se alguém quisesse matar uma pessoa, não seria oportuno botar a culpa na “anestesia”, logo após uma cirurgia?

 

    Foi quando eu disse que não daria o atestado e mandaria o corpo para o IML, pois não havia achado explicação para uma morte súbita.

 

    O viúvo teve um acesso de raiva e disse que ia chamar a polícia (Sem chorar).   

 

    Eu disse que quando ela chegasse seria bom, pois todos nós iríamos pra Delegacia, e as partes seriam OUVIDAS…  

 

    Ele continuou esbravejando e voltei para preencher a ficha de evolução do caso.

 

    Quando virei de costas ele gritou mais ainda e chamamos o segurança pra “acalmá-lo”.

 

    Ouvi dizer que o médico “da família” deu o atestado. Hum-hum. Sei.

 

MORAL: Médico (geralmente) não é burro.

porMarcilio

O mal da mãe

Um belo dia, após atender várias vezes uma senhora no ambulatório, com umas pressões altíssimas, e após seis ou sete mudanças de medicamento, resolvi dar uma de psicólogo (mais do que o normal) e perguntei o que estava acontecendo com a paciente, ALÉM  da doença.

 

    Ela me disse que não conseguia arranjar emprego porque um dos seus filhos havia FALSIFICADO um atestado de óbito DELA, e recebia uma pensão por morte em alguma cidade do interior de São Paulo!!!

 

    Perguntei: ” E a senhora já mandou alguém investigar seu filho?”

 

    E ela disse: “Ah, doutor, mas aí ele vai ser preso!!!” 

    ?????????

    Assim, continuei apenas fazendo o meu trabalho…

 

MORAL: Boa parte dos nossos problemas são causados pela omissão, pelo apego ao que “os outros vão pensar”, pela tendência de carregar todos os problemas dos outros, e muitas doenças poderiam ser melhor controladas apenas com o comprometimento do paciente. 

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